As veias entupidas da América Latina

por Roberto Paulino Guimarães

Li o clássico de Eduardo Galeano quando a barba ainda lutava para ser pouco mais que um fiapo. Aos 17, virou meu livro de cabeceira por algumas semanas. Por vezes, meu temporário exemplar de “As veias abertas da América Latina”, se não me engano editado pela Paz & Terra – que contava com um certo sociólogo ainda chamado pelo nome completo de Fernando Henrique Cardoso em seu conselho editorial – fornecia indícios de que iria desmoronar, tamanha a volúpia com que os leitores do surrado volume emprestado da biblioteca devoravam suas teses sobre o subdesenvolvimento do subcontinente. Vibrava com algumas passagens a ponto de ler e reler, tomar notas, escrever sobre elas e, na deliciosa irresponsabilidade da adolescência, pensar que pensava além. Mas Galeano não tinha vida fácil no meu quarto: dividia o diminuto espaço do criado surdo-mudo com beatniks, gracilianos e outros coleguinhas mais diretamente engajados, como Bakunin, Maurice Dobb, Hobsbawm e o bom e velho Carlito Marx. Bons tempos de descobertas.

Não voltei a visitar as veias do uruguaio, talvez por recear que tenham perdido um pouco da potência, engolidas pela pós-modernidade de um capitalismo cada vez mais sem fronteiras, identidades nacionais ou regionais. Mas foi impossível não lembrar das teses de Galeano ao deparar com recente pesquisa do Banco Mundial que aponta que, em 2030, a América Latina terá 191 milhões de obesos. O número é ainda mais alarmante quando consideramos que, em 2005, a obesidade atingia “apenas” (com direito a todos as aspas) 60 milhões de pessoas. A pesquisa, publicada no início do mês no “El País”, parece ter sido solenemente ignorada no Brasil. Mas, felizmente, o assunto obesidade estampou a capa do Estadão do mesmo domingo, em que a manchete gritava “Jovem ingere por ano 26 quilos de açúcar em bebidas”. Os dados, revelados por estudo acadêmico, referem-se a crianças e adolescentes, de 3 a 17 anos, de cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife.

É desesperador constatar o estrago causado pelo lixo da indústria alimentícia, com suas gorduras, açúcares e conservantes. Uma amostra do que acontece quando poderio econômico e desinformação caminham juntos pode ser conferida no obrigatório documentário “Muito além do peso”, que trata da obesidade infantil no Brasil, uma chaga que já atinge um terço dos pequenos e – bingo! – cresce entre os mais pobres. O filme, dirigido por Stela Renner, é muito bem produzido, e pode ser assistido via streaming ou baixado gratuitamente no site oficial do documentário (www.muitoalemdopeso.com.br). 

Na matéria do Estadão, o Ministério da Saúde admite que a obesidade infantil é uma epidemia no país. É um começo, mas não basta. A máquina de dinheiro que (sub)alimenta essa lenta matança é tão forte que – embora seja responsável por, em pleno século 21 das “maravilhas” da sobrevida proporcionada pela Medicina, reduzir a expectativa de vida nos países ricos em dez anos, como alardeou em sua palestra no TED Jamie Oliver, o chef pop da televisão – seus maiores ícones (Coca Cola e Mc Donald’s) patrocinam os dois principais eventos esportivos do planeta.

Em vez de constatar que a obesidade é uma epidemia, o Governo deveria agir. Proibir propaganda (e não apenas infantil) seria um começo, embora insuficiente. É preciso ser criativo para lidar com um problema peso-pesado como esse. Talvez o primeiro passo seja perder o medo de enfrentar os multibilionários produtores de alimentos à base de gordura e açúcar que são embalados em sacos brilhantes estampados por sorridentes personagens de desenho animado. Outra boa medida é aprender a fazer contas, pois suspeito que todo e qualquer governo gasta muito mais com o muitas vezes inútil tratamento médico dessas gerações perdidas do que arrecada com impostos dos agentes econômicos que entopem as veias não apenas latino-americanas, mas de todo o planeta.

Mas engana-se quem imagina que nossas veias “em desenvolvimento” estão igualmente expostas às gorduras e açúcares que precipitam infartos, AVCs, diabetes e outras doenças graves. É preciso enxergar o óbvio: obesidade é, cada vez mais, doença de pobre, das hordas de “novos consumidores” de nossa classe C que finalmente podem ter acesso às maravilhas da sociedade de consumo, como balas, refrigerantes, salgadinhos, hambúrgueres e batatas fritas. Não adianta dourar a pílula: comer bem, em termos nutricionais, em geral ainda custa caro – e haja criatividade para mudar isso.

Não por acaso, o ideal de beleza dos nossos tempos em que só morre de fome quem é de fato miserável, é a magreza. Afinal, quando só os ricos podiam comprar comida, o “padrão estético vigente” identificava o belo com muitos quilos a mais. Hoje, quando só é magro quem, no limite, tem dinheiro para comer menos e melhor, a obesidade passou a ser identificada com a pobreza. Ou seja: os ricos produzem salgadinhos e refrigerantes, enquanto comem saladinha e bebericam água com gás. Pensando bem, talvez esteja na hora de reler Eduardo Galeano.

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